Excesso de capacidade leva a distorções e pressão sobre a China

Valor – SP   29/09/2021

País é apontado como principal responsável por desequilíbrios de oferta

Por Vladimir Goitia — Para o Valor, de São Paulo

O gigantesco potencial de capacidade de produção de aço no mundo, em torno de 2,45 bilhões de toneladas, ante um consumo equivalente estimado em 1,89 bilhão de toneladas em 2020, gerou excesso de capacidade de 562 milhões de toneladas, que, por sua vez, trouxe fenômenos como práticas desleais e predatórias de comércio, escalada protecionista e desvios de exportações para mercados que não contam com mecanismos de proteção, como o Brasil.

A China, cuja produção no ano passado passou de 1 bilhão de toneladas, volume duas vezes maior do que a soma produzida pelos nove países seguintes no ranking dos maiores players globais, é apontada como a maior e principal responsável por esse problema no mercado global de aço.

“Ou a China parte para uma redução de verdade de sua capacidade instalada ou para um aumento de seu consumo. Caso contrário, as práticas desleais de comércio, num mercado onde a competição já é acirradíssima, vão continuar”, aponta Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Instituto Aço Brasil.

Segundo Lopes, a agressividade chinesa é tanta que, do total de produtos siderúrgicos importados em 2020 pelo Brasil, 43,4% (800 mil toneladas) vieram daquele país. Em 2000, era 1,4% apenas (12 mil toneladas).

Diante das pressões internacionais, em especial dos ambientalistas sobre a necessidade de descarbonização da indústria, a China prometeu enxugar a produção na tentativa de cortar emissões. Assim, a redução até dezembro deve somar 50 milhões de toneladas, segundo a CRU, consultoria especializada em metais.

Esses cortes, explica Thaís Terzian, analista sênior da CRU para o mercado de siderurgia na América Latina, começaram num momento de demanda interna já com sinais de desaquecimento. “Por isso, acreditamos que, com os cortes de oferta de aço, o mercado local ficará equilibrado e, dessa forma, não haverá um grande excesso de produção para ser exportado como em anos anteriores”, avalia.

Consequentemente, espera-se menos exportações de produtos siderúrgicos chineses até o começo de 2022, em comparação aos níveis vistos no primeiro semestre de 2021 e em anos anteriores. Para a analista da CRU, deve haver menor pressão no mercado global de aço. Tirando a China, a produção de aço no restante do mundo este ano deve crescer 13%.

A decisão chinesa gerou também impactos nos preços do minério de ferro, já que o país é o maior consumidor e importador dessa commodity. Segundo Terzian, o preço spot do minério de ferro refinado (62% Fe, CFR China) mostrou forte queda nas últimas oito, nove semanas, passando de US$ 220,00 por tonelada em julho para US$ 128,00 por tonelada em meados de setembro.

“Já os preços do carvão têm sofrido menos influência do mercado chinês, porque o país baniu suas importações de carvão da Austrália para incentivar o desenvolvimento da indústria local”, acrescenta Terzian. Ela explica ainda que, com o movimento do país asiático, o Brasil perde pelo lado de suas exportações de minério de ferro, por causa dos preços e demanda mais baixos. Porém, ganha pelo lado das exportações de aço, já que podem surgir oportunidades em novos mercados, além da possibilidade de os preços ficarem altos por mais tempo por conta de um balanço entre oferta e demanda mais apertado globalmente.

Em relação aos estoques globais de aço, Terzian diz não existirem informações precisas, mas é possível aferir dados de algumas regiões. Na China, por exemplo, os estoques estão nos mesmo níveis do ano passado e acima de anos anteriores. No Brasil, os estoques de distribuição de aços planos voltaram para a média histórica de três meses de consumo recentemente, segundo dados do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço, enquanto na Alemanha os estoques de aços planos seguem segue abaixo da média histórica.

Sobre o consumo mundial, Terzian diz que vem se recuperando do impacto negativo provocado pela pandemia, principalmente no segundo trimestre de 2020. “Acreditamos que vamos fechar 2021 com o consumo global de produtos siderúrgicos superior aos níveis de 2019, com aumento de 6,7% do consumo aparente global”, afirma. A analista da CRU diz ainda que a intensificação do tema de descarbonização da indústria do aço deve movimentar investimentos no setor e trazer algumas mudanças estruturais importantes. “As políticas chinesas são sempre um ponto importante, no curto prazo. A potencial implementação de um imposto de exportação a produtos siderúrgicos poderia limitar as exportações do país e aumentar os custos e preços em 2022”, afirma. Terzian diz também que o pacote de infraestrutura dos Estados Unidos, quando e se aprovado, aumentará a demanda de aço no país nos próximos dois a cinco anos, atraindo importações, bem como novos investimentos na indústria siderúrgica americana.