Usiminas tem problema em alto-forno que foi reformado

Valor – SP   28/09/2021

Conserto do equipamento, que voltou a operar em junho após reforma que custou R$ 67 milhões, pode demorar até 150 dias, segundo a empresa

Por Ana Paula Machado — De São Paulo

28/09/2021 05h01  Atualizado 28/09/2021

A Usiminas anunciou ontem a parada para manutenção do alto-forno 2 da usina de Ipatinga, no Vale do Aço (MG). O equipamento, que passou por reforma em 2020 e voltou a operar em junho deste ano, sofreu um incidente – de acordo com a companhia – na última sexta-feira. O conserto pode durar até cinco meses, segundo informou na manhã de ontem em comunicado ao mercado.

O equipamento tem capacidade de produzir 55 mil toneladas ao mês de gusa, ou 600 mil toneladas ao ano. Com a parada, a Usiminas informou que deve elevar a compra de placas para atender o mercado doméstico de aços laminados. No primeiro semestre, ela adquiriu 1,32 milhão de toneladas de placas de terceiros. As vendas de laminados no período somaram 2,61 milhões de toneladas.

O mercado, no entanto, considerou a parada no equipamento, pouco mais de três meses da retomada, negativa para a companhia. Isso porque os custos devem aumentar substancialmente com a compra de placas de terceiros para manter a produção de laminados tanto em Ipatinga quando em Cubatão (SP).

Em relatório, Thiago Lafiego, do Bradesco BBI, informou que a expectativa era de que a Usiminas reduzisse os custos fixos com a retomada desse alto-forno, em junho. Agora, com a parada para consertar o equipamento, as despesas devem aumentar na produção de laminados. “Esperávamos que o aumento da produção com o alto-forno 2, levasse a um desempenho de custo melhor nos próximos trimestres. Agora, porém, a Usiminas voltará ao que vinha fazendo no ano passado, aumentando as compras de placas de terceiros”, disse o analista.

Segundo ele, o custo estimado de produção da Usiminas é em torno de US$ 550 a US$ 600 a tonelada. Já os preços spot das placas no Brasil chegam a US$ 775 a tonelada. Nas suas contas, considerando o período de 90 a 150 dias, o custo implícito na operação seria entre R$ 180 milhões e R$ 300 milhões, ou 1,5% a 2,5% do Ebitda de 2021.

“Observamos, entretanto, que a Usiminas não deve sentir o impacto total da diferença de custo de uma só vez, pois estimamos que a empresa tenha cerca de três meses de estoque de placas”, observou.

No relatório, o analista diz que os gastos para a nova reforma no equipamento podem chegar a R$ 30 milhões. Na reforma da instalação, a empresa gastou R$ 67 milhões. O Valor apurou que o cone maior do alto-forno desabou dentro do equipamento, contaminando a carga de ferro-gusa e afetando sua estrutura de refratário.

“Embora os custos da empresa devam de fato ser maiores do que o esperado nos próximos trimestres devido ao anúncio de hoje (ontem), ainda vemos os preços das ações da Usiminas em um cenário negativo para 2022”, afirma Lofiego. Ontem, as ações caíram 2,09%, sendo negociada a R$ 15,95.

Para o presidente do Inda, entidade da rede de distribuição, Carlos Loureiro, o incidente pode fazer com que ocorra uma acomodação dos preços da tonelada de aço no mercado interno. Isso porque, com a menor oferta da Usiminas, a concorrência entre as usinas deve reduzir. “Haverá mais “disciplina”.

“Não deve haver tantos descontos. Por isso, creio ser positivo nesse aspecto, com estabilidade nos preços nos próximos três meses”. Procurada, a empresa não se pronunciou além do comunicado.