Com abastecimento solucionado, usinas elevam exportações

Valor – SP   25/08/2021

Preço internacional alto e queda na produção da China puxam vendas externas de aço

Por Ana Paula Machado — De São Paulo

Carlos Loureiro, do Inda, diz que a tendência de aumento nas exportações deve se manter também em agosto — Foto: Silvia Costanti/Valor

A queda na produção de aço na China em julho abriu espaço para as siderúrgicas do Brasil voltarem com mais força ao mercado mundial. No mês passado, a China recuou a atividade por força de medidas governamentais para diminuir as emissões de CO2 no país e produziu 86,8 milhões de toneladas, queda de 8,4% em relação a julho de 2020.

Esse desempenho também afetou a produção siderúrgica na região Ásia e Oceania no período, quando o indicador chegou a 116,4 milhões de toneladas, queda de 2,5%. Os dados foram divulgados ontem pela World Steel, entidade que reúne 85% da produção siderúrgica mundial.

Com a desaceleração da siderurgia chinesa, a produção mundial reduziu o ritmo de crescimento em julho. No mês passado as siderúrgicas mundiais fabricaram 161,7 milhões de toneladas de produtos, alta de 3,3%. Em junho, o aumento na produção foi de 11,6% no comparativo com o mesmo período de 2020.

A China produziu em julho 86,8 milhões de toneladas, queda de 8,4% em relação ao ano passado

O cenário externo favorável e o ambiente doméstico controlado, com o abastecimento de aço em níveis normais, levaram as siderúrgicas nacionais a se voltarem para a exportação, conforme o presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), Carlos Loureiro.

Segundo Loureiro, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Usiminas, Gerdau e ArcelorMittal já embarcaram produtos siderúrgicos em julho. “Essa tendência se acentua em agosto, vamos ter surpresas com os números de exportação. Há muito material que deve ser contabilizado para este mês”, afirmou o dirigente.

Loureiro acrescentou que a CSN enviou material para sua subsidiária em Portugal e para os Estados Unidos e está usando toda a sua cota de zincado, que é de 330 mil toneladas. “A CSN fechou volumes grandes de exportação, acima de 100 mil toneladas.”

Em nota, a ArcelorMittal confirmou o aumento das exportações. “Com o abastecimento do mercado interno normalizado, voltamos a exportar placas e bobinas para os seus mercados tradicionais”, informou. Procuradas, Gerdau, CSN e Usiminas não se manifestaram.

Pelos dados do Instituto Aço Brasil, em julho foram exportadas 978 mil toneladas, ou US$ 872 milhões, o que resultou em aumento de 11,8% e 122,6%, respectivamente, na comparação com o ocorrido no mesmo mês do ano passado.

Para se ter uma ideia do peso do preço internacional do aço nesse movimento de aceleração das exportações brasileiras, segundo dados do Inda, no dia 9 de agosto, a tonelada do laminado a quente nos Estados Unidos estava cotada a US$ 2 mil. Já na China, o material era negociado a US$ 753 e a média mundial da tonelada do produto era de US$ 970.

“Preços da sucata nos EUA continuam fortes e essa é a razão da tonelada estar alta. O material laminado a quente já passou de US$ 2 mil a tonelada e subiu mais de US$ 67 em um mês. Por isso a CSN está vendendo zincado para o mercado americano, a tonelada passa dos US$ 2,4 mil. O preço está bem competitivo”, afirmou Loureiro.

No mercado doméstico, no entanto, os preços não devem ser reajustados até o fim do ano, de acordo com o presidente do Inda. De janeiro do ano passado até julho, a tonelada do aço plano subiu cerca de 130%, sendo só neste ano 80%. “Com o mercado abastecido, os clientes refizeram os estoques. Os preços não devem subir, a não ser que o dólar dispare, mas, pelo horizonte de três a quatro meses, não vejo espaço para [novos] aumentos.”

Loureiro ressaltou que uma das razões para a regularização do abastecimento do mercado é o crescimento das importações. Em julho, as compras externas somaram 211,3 mil toneladas, alta de 181,9% no comparativo com o mesmo período de 2020.

“As vendas em julho foram piores do que imaginávamos. Isso muito em função das importações que cresceram no período. Para se ter uma ideia, foram importados quase o mesmo volume que os distribuidores venderam”, afirmou Loureiro, informando que a rede comercializou 261,4 mil toneladas no mês.

Segundo ele, as vendas diárias em julho foram semelhantes aos níveis de 2015 a 2016, quando o mercado estava mais desaquecido. Diariamente, a rede comercializou 12,4 mil toneladas. No ano passado, as vendas diárias somavam 15 mil toneladas em julho.

“Já trabalhamos com a perspectiva de estabilidade nas vendas este ano. Os números do segundo semestre de 2020 foram muito fortes, pois fizemos vendas para clientes das usinas. Estamos passando pela ressaca. A nossa estimativa anterior era de crescimento nas vendas de 5% a 6%.”

As compras de aço pelos distribuidores somaram 295,6 mil toneladas em julho, queda de 6,6%. No acumulado do ano, a rede de distribuição comprou 2,33 milhões de toneladas, alta de 24,9%. Segundo os dados, os estoques em julho somaram 820,2 mil toneladas, queda de 1% no comparativo com o mesmo período de 2020. Com esse volume, a rede tem 3,1 meses de vendas, o que chegam ao giro normal dos distribuidores. “Entramos nos níveis históricos, mês que vem devemos passar o giro de 3,2 meses.”