Escassez de aço prejudica produção da indústria da Serra

GauchaZH – 01/06/2021

Empresas precisam investir cerca de 200% a mais na compra de alguns tipos de matérias-primas

Preço do aço em maio de 2020 era de R$ 5,5, o quilo e, agora, é de R$ 12 Marcelo Casagrande / Agencia RBS

indústria da Serra sente o impacto da escassez de uma matéria-prima importante para segmentos em que a região é referência. A baixa disponibilidade de aço, devido ao aquecimento de mercados internacionais e à parada de equipamentos no ano passado por causa da pandemia, faz com que as empresas metal mecânicas e moveleiras tenham aumento de custos e pedidos represados. O presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), Carlos Loureiro, revelou que, até abril, as usinas haviam reajustado o preço do aço, repassado aos distribuidores, em 35%.

De acordo com o vice-presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul e Região (Simecs), Ruben Antonio Bisi, a falta da matéria-prima atinge de forma ainda mais preocupante as empresas de pequeno e médio porte da Serra. Porque as de grande porte fazem programações de prazos maiores junto às usinas e, assim, são priorizadas por elas nas entregas. Mas o cenário aquecido para as siderúrgicas também se reflete no aumento brusco de preço. Em alguns tipos de aço, o custo cresceu até 200%.

— Achamos que vai ter muito desabastecimento e aumento de preços, em função da retomada da China e também por causa da injeção de US$ 1,8 trilhão na economia dos Estados Unidos (o que aumenta o consumo e consequentemente a busca pela matéria-prima) — aponta o vice-presidente do Simecs.

O problema do abastecimento, diz ele, atinge ainda outras matérias-primas, como alumínio e plástico. A indústria moveleira, cujo principal polo nacional fica em Bento Gonçalves, também sofre com a escassez de aço e outros insumos, como placas de MDF, MDP e da própria madeira. A condição já traz um impacto no preço para o consumidor final e, como os produtos sofreram aumentos expressivos, a tendência é que nos próximos meses isso se reflita na inflação. 

O presidente da Associação das Indústrias de Móveis do Estado do Rio Grande do Sul, Rogério Francio, explica que o repasse de custos ao cliente final já começou, mas sem que isso aumente a rentabilidade das empresas:

— Os aumentos para o mercado de uma maneira geral foram numa faixa entre 50% e 80%. Alguns produtos se repassaram inclusive o aumento de 100%, mas isso não significa que melhorou a lucratividade das empresas, porque tivemos de assumir outros custos, como dissídio da categoria e aumento da luz.

Crise sem precedentes

A Metalúrgica Buzin buscou novos fornecedores de aço e, mesmo assim, encontra dificuldade no fornecimento. Para driblar a dificuldade, a empresa passou a reprocessar a matéria-prima. Além disso, normalmente, o produto é encontrado em São Paulo e não mais no Sul. Com isso, aumentam os prazos para entrega. Como consequência, o período médio que a empresa caxiense demorava para fornecer ao comprador a encomenda saltou de 10 dias para uma média de 20 dias. 

O aumento de custos é outro aspecto que impacta o negócio. O preço do quilo de aço em maio do ano passado era de R$ 5,5 o quilo e agora é de R$ 12. O reprocessamento exige também mais trabalho e, consequentemente, aumento das horas-extras. 

“Nós temos uma quantidade importante de pedidos e estamos tendo atraso na entrega para o nosso consumidor final” , revela Cíntia Marcelo Casagrande / Agencia RBS

A diretora da metalúrgica, Cintia Buzin, diz que o repasse desses custos é um processo que demora de 30 a 60 dias e, enquanto isso, a empresa tem que absorver esses aumentos. Não bastasse isso, a falta de matéria-prima leva até mesmo à recusa de alguns pedidos. A diretora, que atua há 22 anos na Buzin, diz que as dificuldades enfrentadas atualmente no mercado do aço não têm precedentes. 

— Estamos no ramo do agro, que é nosso principal segmento. De setembro de 2020 para cá, percebemos um aquecimento desse mercado. Nós temos uma quantidade importante de pedidos e estamos tendo atraso na entrega para o nosso consumidor final, por causa da falta de matéria-prima — revela Cíntia.

A empresária cobra que o governo federal tome medidas para incentivar o mercado nacional. Entre as sugestões, está a isenção de impostos para a importação. O presidente do Simecs, Paulo Antônio Spanholi, participou de uma reunião sobre o assunto com o Ministério da Economia na semana passada e conta que outro ponto levantado foi o aumento da produção nacional de aço para garantir o abastecimento das empresas brasileiras.